Terceira Margem
Arquitetura e Singularidades
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Kayapós do Leste

Assessoria técnica em arquitetura para o Plano de Apoio à Autonomia dos Kayapós do Leste | Janeiro 2017

O projeto Kikré foi implementado pela Associação Floresta Protegida em 22 aldeias no sudeste do Pará e fez parte do Plano de Apoio à Autonomia Kayapó do Leste, uma iniciativa da associação em conjunto com a Eletrobrás e a FUNAI. O Estúdio Guanabara e a Oikos foram os responsáveis por todo o processo do projeto de arquitetura para as novas moradias. As etapas de construção de demanda e do estudo preliminar contaram com a participação da Terceira Margem, com seu processo participativo, além da Ohásis Arquitetura, Julia Sá Earp e Valentina Dávila. 

A dinâmica corporal da oficina de co-criação trabalhou um passado comum e ancestral aos diferentes povos - a evolução das pessoas antes mesmo de sermos separadamente vermelhos, brancos, negros ou amarelos. Depois da percepção desse comum, a atenção foi levada para as diferenças que existem hoje e a disponibilidade de encontrá-las para um habitar coletivo na Terra. A frase de um indígena após o processo de oficina, "eu senti o calor da lâmpada", marca uma guinada no processo participativo que tínhamos elaborado antes de chegar no Pará. Ele foi repensado a partir do encontro. Percebeu-se, por um lado, uma outra atenção corporal que inviabilizou o esquema de participação na concepção de projeto - um tanto abstrato - que tinha sido pensado ainda no Rio de Janeiro. E, por outro, percebeu-se de modo muito evidente um desejo latente dos habitantes indígenas de não ter uma casa puramente tradicional, sobretudo por questões de durabilidade.

 A casa Kubengokré, em parte Kuben (homem branco) em parte Mebengokré (povo que veio do olho da água ou os Kaypós) foi desenhada na perspectiva de reduzir os danos do impacto da casa Kuben nas aldeias, normalmente construída através de lógicas e materiais urbanos. Em contrapartida, a casa tradicional tem seus limites de durabilidade e não atende diretamente a dinâmica de transformação que os Kayapó também vivem, a partir do convívio direto com a cultura hegemônica das cidades próximas às aldeias. Nem a casa do homem branco da cidade, nem a casa tradicional foram replicadas: criamos uma terceira via. A  tipologia da casa tradicional é mantida mas em diferentes arranjos, materiais e programas. Composta de estrutura independente e de um sistema de ventilação e aberturas inspirada na casa tradicional, a casa que concebemos foi proposta de diferentes materiais que pudessem manter uma coerência com a cultura Kayapó. A exemplo dos  tijolos de BTC, não tradicionais nessa cultura, mas igualmente sustentáveis e de acesso irrestrito a matéria prima no território, visto que são feitos de terra crua. 

 Como a autonomia nessa cultura originária do território brasileiro não é apenas importante na construção das casas mas é sobretudo uma questão chave na própria dinâmica política das aldeias, elaborou-se maquetes com diferentes opções de telhados, vedações e materiais. Essas maquetes arranjadas em uma caixa plástica para não molhar nos pequenos barcos que nos conduziram às aldeias, foram dispositivos de diálogo entre arquitetos e índígenas, possibilitando a escolha de cada aldeia do seu arranjo construtivo. A partir do custo e dos discursos agenciados a cada uma das opções as escolhas eram feitas e ao mesmo tempo que variavam de aldeia para aldeia eram similares em uma tipologia comum, a kubengogré. A escolha se deu uma a uma em diversas reuniões nas aldeias, organizada em três rotas e equipes de arquitetos, indigenistas, membros da Funai e membros indígenas da Associação Floresta Protegida

 A assessoria técnica de arquitetura abre o leque de opções e vai em cada aldeia para que cada uma escolha a casa que deseja habitar.

Antes da elaboração do projeto, o Terceira Margem conduziu uma oficina de sensibilização coletiva.

Etapas da metodologia envolvidas: ESCUTAR, AMPLIAR, CRIAR,

Abaixo, vídeo com um recado dos Kayapós para todos nós!
Organizado pela Associação Floresta Protegida, durante a elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra indígena Las Casas, conduzido pelas comunidades Kayapó de Tekrejarotire e Kaprãnkrere