Terceira Margem
Arquitetura e Singularidades
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Casa Mistério

 

 

 

 

 

 

ProjetosCASA MISTÉRIO

O processo de concepção espacial contou com Oficinas Terceira Margem como ponto de partida. Nelas, buscamos encontrar sentidos que escapassem à funcionalidade do habitar, ampliando o valor do uso dos objetos e espaços, dando a eles outros sentidos. Que modo de vida fortalecemos com esse ou aquele uso? 

Ao longo das oficinas, os clientes deram-se conta da casa em que não gostariam de morar: “Não queremos uma ‘casa Windows’, como uma tela de computador, em que tudo é organizado e pré-definido em pastas – casa, trabalho, férias”.

Com as demandas mais claramente construídas, em conjunto, caminhamos para o desenho da proposta. Nasceu a possibilidade de uma casa não definidora das ações, onde os cômodos não sugerem um uso em si, e sim uma qualidade espacial e de estar. Um espaço de silêncio e concentração, um lugar de encontro. Um local mais claro, em contato com a janela, um local mais reservado e escuro. Uma “Casa Mistério”, que acolhe diferentes humores e as diferentes maneiras de estar, independente da ação objetiva a ser praticada e vivida em cada cômodo.

Etapas da metodologia envolvidas: ESCUTAR, AMPLIAR, CRIAR, CONSTRUIR, ACOMPANHAR.

Relato de uma habitante da casa mistério

"Depois de uma longa procura, finalmente, apartamento comprado! Amplo em uma rua charmosa e arborizada. Cidade nova, deixaria o Rio de Janeiro para morar em Porto Alegre. Estava grávida. Grandes mudanças e uma reforma pela frente. Muitos sonhos para nossa casa nova e junto com eles, a concretude de paredes que seriam derrubadas, o orçamento curto, a elétrica, a hidráulica e por aí vai.

Começamos nosso projeto da “casa mistério” com a oficina da água. Deitada no chão, olhos fechados, os sacos d´água tocavam minha pele. Por onde a água circula em meu cotidiano? Quais sensações percorrem-me quando lavo a louça, tomo banho ou encharco o pé em uma poça d´água?

A história do banho pegou, mobilizou minha memória! Percebi que a brincadeira e a imaginação que marcavam meus banhos na infância tinham desaparecido. Restou apenas a limpeza do corpo. Ali na oficina meu corpo entregava-se a água e seus sentidos multiplicavam-se. Entrava em contato com seu som, temperatura, sua qualidade líquida e fluida trazia imagens. Um beijo gelado de cachoeira, a pedra do rio abraçando as costas, o mistério de nadar a noite no mar, uma tarde divertida com amigos na piscina. Poderia trazer essas imagens e sensações para a casa nova? Como o espaço a ser construído poderia ajudar a ampliar os sentidos com a água - com o banho - que apareciam perdidos na infância?  

Foi então que surgiu a ideia de que o espaço de banhar-se, usualmente colocado em um ambiente fechado e privado podia ganhar outras relações. Alargar o tempo abrindo espaço para brincar, mergulhar, conectar-se com a pele da água, com seus pingos e respingos, deixar escorregar o dia, a noite...

Um banho mais público! Uma banheira que possibilite não mais apenas limpar-se mas que envolva o banho em uma erótica, em uma conversa de corpos, estimulando o lúdico, podendo se fazer um pouco cachoeira, um pouco rio e mar, um pouco beijo e abraço.

Chegamos a um projeto de banheira na sala. Mais que isso, vivemos um percurso juntos onde pudemos construir essa possibilidade. Partimos do reconhecimento de nosso cotidiano e de nossa história com o habitar. Acessamos memórias, desejos, imagens, sensações. Fizemos assim, não uma escolha guiada pelos padrões de decoração que encontramos nas revistas, tampouco ficamos passivos frente as opções apresentadas por um arquiteto.Reinventamos nosso habitar em uma poética com a água nascida na singularidade de nossas vidas, sonhos e encontros com essa arquitetura que se faz junto, pelos afetos e na aposta de transformar modos de viver e morar"